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A História da População Feminina e LGBT+s com Deficiência nos Quadrinhos

Fui citada brevemente numa matéria da Revista Jovem Geek. Nela fala sobre a “A História da População Feminina e LGBT+s com Deficiência nos Quadrinhos” e a importância de existir essa representatividade no meio artístico.

Você pode ver o post no link [ https://www.revistajovemgeek.com.br/2020/09/a-historia-da-populacao-feminina-e.html ], mas vou postá-lo aqui embaixo.

Conhecer a história em geral é muito importante, pois um povo sem história é um povo sem entender o presente. Mas a história da população feminina e LGBT+ com deficiência nos quadrinhos é muito importante por mais outra razão: o resgate de referências históricas, visto que, se deixar para as outras pessoas que divulguem e resgatem tais referências, bem, não dá muito certo.

Mas por que feminina e LGBT+ com deficiência? Não só porque são as minorias sociais que eu faço parte (eu sou mulher, sou LGBT+ e autista), mas também porque todos os preconceitos relacionados a gênero e sexualidade têm uma mesma origem: uma sociedade normativa e patriarcal, que só aceita um relacionamento quando ele é entre um homem e uma mulher cisgêneros e heterossexuais, sendo o homem trabalhando e a mulher cuidando da casa, sempre submissa. Pessoas que quebram essa norma sofrem, dentre muitas coisas, de invisibilidade, como já discutimos no parágrafo acima. A intersecção da deficiência se deu não só por causa do meu lugar de fala como uma pessoa com deficiência, como também a minha percepção que a intersecção da deficiência é bastante ignorada nos movimentos feministas e LGBT+s.

Pois bem, vamos lá (para ler sobre as décadas anteriores, assine nossas edições gratuitamente e veja a 15ª edição, pág. 56):

A partir da década de 1990

Dois fatores aconteceram. O primeiro foi que Art Spielgman, com o seu quadrinho “Maus”, ganhou um Prêmio Pullitzer em 1992. Isso foi a maior simbologia de que os tempos dos quadrinhos underground estava chegando ao fim. Os tempos das chamadas Graphic Novels e de quadrinhos autobiográficos estava começando.

Não que as antologias ou as tirinhas tivessem chegado ao fim. Na verdade, muitos desses tipos de trabalho migraram para a internet. E na internet, não é necessário nenhum contrato, união com outra pessoa (que muitas vezes pode ter diversos preconceitos). A verdadeira diversidade veio da internet. LGBT+s e mulheres com deficiência de diferentes biotipos, etnias, etc, pessoas assexuais, transgêneras, bissexuais, dentre outras, começaram a publicar quadrinhos, e não apenas gays, lésbicas ou até mulheres heterossexuais com deficiência.

Mas vamos lá, dentre os quadrinistas, temos a pioneira Ellen Forney, que é bissexual com transtorno bipolar. Ela começou ainda publicando tirinhas em diversos jornais dos EUA. Em 2006, publicou seu quadrinho Parafusos: Mania, Depressão, Michelangelo E Eu, que falam sobre o seu processo de diagnóstico de bipolaridade, que aconteceu em 1998. Durante mais de 20 anos a quadrinista é ativista da causa do transtorno bipolar, da saúde mental e da neurodiversidade.

Nos anos 2000 tivemos duas quadrinistas que quebraram paradigmas e chegaram a trabalhar em editoras como Marvel e DC Comics: Magdalene Visaggio, mulher transgênera e autista, e Janelle Asselin, lésbica com depressão e fibromialgia. Visaggio, na DC, trabalhou em títulos como Mulher-Maravilha, Patrulha do Destino, Batman, dentre outros. Já na Marvel, trabalhou em títulos como Ms. Marvel e Venom. Além disso, já trabalhou na Black Masc Studios, BOOM! Studios, ComiXology, Darkhorse Comics, IDW, Oni Press, Redline Comics, Valiant Entreteniments e Vault Comics, trabalhando em títulos como Power Rangers e Transformers. E sempre querendo trazer representatividade de diversas formas em seus trabalhos.

Já no caso de Asselin, ela trabalhou apenas na DC Comics, em títulos como Batman, Batgirl e Aves De Rapina. Saiu por um motivo muito triste: assédio sexual de um colega de trabalho, Eddie Bazarga, e a forma com que a DC Comics tratou da situação: com descaso. Em 2013,                 Asselin se tornou editora sênior do site ComicsAliance. Lá, criou um banco de dados de mulheres quadrinistas em ascensão chamado “Hire This Woman”, para valorizar os trabalhos das mulheres nos quadrinhos.

Mas essas duas mulheres são exceção. A maioria das mulheres e pessoas LGBT+s com deficiência realmente desenvolveu seus trabalhos na internet. John Jennison, um homem transgênero que faz quadrinhos sobre questões médicas e sua luta contra o câncer. Keiler Roberts, uma mulher com transtorno bipolar que fala sobre transtornos mentais em seus quadrinhos (Chlorine Gardens; Rat Time). Carlise Robinson, surdo e transgênere não binárie, que escreve quadrinhos sobre surdez, LGBT+s com deficiência e questões queer, além de outros quadrinhos com aventuras mágicas (What QQ; Growing Up Trans; The Satraisn e The Case Of Victor Gray). Cece Bell, que fez um quadrinho autobiográfico chamado A Surda Absurda, sobre sua infância como uma menina surda nos Estados Unidos. Lawence Lindell, um homem transgênero negro com transtorno bipolar e transtorno de stress pós-traumático que em seus quadrinhos fala sobre saúde mental, negritude e questões queer (From Truth With Truth: A Graphic Memoir; Couldn’t Afford Therapy, So I Made This; From Black Boy With Love; The Section). Tee Franklin, uma grande representatividade como mulher bissexual, acima do peso, negra e cadeirante, falando de todas essas questões em seus quadrinhos (Bingo Love; Love Is Love: Tears; Elemnets Anthology: A Blakin; Jook Join), e ainda por cima sendo a primeira mulher negra a trabalhar na Image Comics, sendo que ela trabalhou no título Nailbiter. Hatiye Garip, uma turca que é mulher transgênera e surda (Corona Diary; Wild Blossom Honey; dentre outros). Ashanti Fortson, transgênere não binárie, negre e latine com deficiência que já fez diversos quadrinhos de histórias e aventuras mágicas (Cress & Petra; Leaf Lace; A Castle of Thorns; Wayward Kindred; Through Whose Eyes; The White City; Smallness; Before Our Time Is Up; Morel Support; This Feeling of Comfort e Heritage). Farid And, um homem transgênero e acima do peso vindo da Malásia que escreve quadrinhos que misturam aventuras fantásticas com suas experiências como autista, além de saúde mental (Ryot; Find Me; Synth e Doubles). Carly Usdin, transgênere não binárie com TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) que já publicou quadrinhos para a BOOM! Studios (Hi-Fi Fight Club; The Avant-Guards). Jessica e Lianna Oddi, que publicam tirinhas sobre suas vidas como mulheres com deficiência no blog que as duas administram, The Disabled Life. Andres D. Bravo, um homem transgênero latino com AIDS vivendo nos Estados Unidos que participou da antologia Cuentos, que reunia diversos artistas latinos LGBT+, com a história The Mitode, além de ter feito o quadrinho Eyes Of An Expectator para a antologia de terror The Night Terrors. E isso dentre muitos outros artistas que com certeza estão aí fazendo seus trabalhos ao redor do mundo.

No Brasil

Em terras latinas, a ditadura militar havia acabado. Não só a internet veio, como também a ideia de Graphic Novels e outros modelos de quadrinhos passaram a invadir as lojas geeks, assim como aconteceu lá fora. E também como lá, quando a internet veio, a enorme diversidade também apareceu.

Temos Cecil Honey, uma mulher autista, transgênera e assexual famosa por suas pixelarts sobre robôs gigantes. Aline Zouve, que é lésbica, tem ansiedade e depressão e fala bastante sobre doenças e saúde mental em seus trabalhos (Condição; Síncope; Som & Fúria; Óleo Sobre Tela; Polaróid; Pão Francês). Labrat Kuma, uma autista artista birromântica e assexual que lançou seu primeiro quadrinho, Lamentável, na CCXP 2019. Regi Munhoz, com dislexia e lésbica que fez várias charges. Ju Loyola, uma quadrinista surda internacional que explora muito bem os quadrinhos mudos, sendo que seus trabalhos sempre trazem uma ótima representatividade feminina (The Witch Who We Loved 1 e 2; Perdida Na Floresta; The Charming; The Promisses Of Hapiness; Everybody Can Dance; Friend Or Enemy; The Imagination; I’ll Be Back; Heart Of The True Friend; Shoujo Bomb e Gibi De Menininha 2 (os dois últimos não são quadrinhos próprios, mas antologias que ela participou)). Ing Lee, que traz muita representatividade sendo uma mulher surda, amarela e bissexual que explora e fala sobre esses temas em seus quadrinhos (Karaokê Box; Cápsula; Sam Taegeuk). Vanessa Bencz, uma escritora e palestrante com TDAH que já lançou dois quadrinhos sobre suas vivências com TDAH, A Menina Distraída e Por Enquanto. Chairim Arrais, uma mulher bissexual com fibromialgia que fala disso em seu quadrinho sobre a fibromialgia #EuSóQueroDesabafar. Também já lançou o seu quadrinho Red +18, que é um quadrinho erótico feminista. E tem outros quadrinhos sobre outras temáticas também: E8; Histórias Passageiras; Mare Rosso e O Livro De Conselhos Do Gato Dalazar. Thaio Conde, mulher com deficiência física especializada em ilustração de livros infantis, mas que já fez uma série de tirinhas chamada Onitirinhas. Luiz Ferrarezzi, transgênero não binário com autismo que publica seus quadrinhos na plataforma de quadrinhos independentes “Tapas” (Chained 1 e 2; Pet Planet e Mood). Partes, uma mulher negra, cadeirante e bissexual, faz desenhos de mulheres diversas e que tem um zine, Coisas Que Tentei Dizer E Não Disse, que é sobre amores não correspondidos. Lucia Lemos, uma mangaká brasileira que tem fibromialgia e que possui vários quadrinhos sobre contos mágicos em terras mágicas (As Crônicas De TAO-NYE; Aika 1 e 2).

O Futuro

O futuro diz que cada vez mais mulheres e LGBT+s com deficiência, sejam elas falando de suas deficiências ou não (lembrar que as pessoas não são obrigadas a serem militantes de nenhuma causa), ainda terão que enfrentar muito preconceito e pouca visibilidade, pessoas ainda estigmatizadas, sejam elas de qualquer minoria social. Porém, é esperar que tudo isso melhore e que minorias sociais ocupem cada vez mais espaços.

Esta matéria foi escrita por Ana, do projeto Nerd PcD. Para saber mais sobre eles, acesse [ https://nerdpcd.com/quem-somos/].