janeiro 2020
S T Q Q S S D
« dez    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Contos

Contos, poesias e tirinhas

Akali

Akali. Aquele dia foi o dia mais triste da minha vida. Talvez não tenha sido o pior dia da minha vida, mas foi o mais doloroso a ponto de eu não aguentar.

Eu desejaria o dia do meu acidente, comigo saindo do carro que afundava no brejo, novamente. Um lugar no tempo em que os minutos anteriores estavam esquecidos pra sempre e o instinto de sobrevivência possuía meu corpo e não havia nenhum pensamento. Eu não pensava: Eu vou morrer aqui embaixo esquecida pelo sol e dominada pela água. Eu era a adrenalina de um animal.

Akali. Ela era um humano, mas que veio nessa vida num corpo de animal. Ela manifestava com pulos e rodopios o orgulho de quem conseguiu se superar e fazer o que não fazia antes. Podia ter surgido como uma tigresa ou leoa, mas preferiu surgir como um gato. O animal que domina o planeta.

Muitos podem questionar minha opinião a respeito de gatos e então prefiro convencer os outros até cederem à minha visão. Gato, com seu jeito excêntrico e charmoso, domina o ser humano de forma que conseguem tudo o que quer – e, submisso à vontade do felino, a pessoa faz de tudo para agradar seu bichano com total satisfação.

Akali. Esta sim sempre conseguia o que queria.

Naquele brejo a um ano atrás, eu estava vulnerável, mas minha menina estava protegida. Os planos sempre foram outros. Coloquei comida e água em abundância para alimentar minha família de 6 gatinhos enquanto eu estivesse fora numa viagem de um dia, mas como uma entidade sensitiva, minha Akali sabia o que estava para acontecer. Protestou e tentou impedir minha passagem pela porta com seu pequeno corpo como nunca tinha feito antes. Miava criticando meus planos com seus grandes olhos e então despedi. É apenas um dia, Akali.

Era apenas um dia. A ânsia do meu retorno perdurou por longos 2 meses até eu finalmente ter alta no hospital. Minhas promessas foram quebradas e ela nunca me disse o que sentiu, então na minha cabeça sempre imaginava que devia ser uma mistura de saudade com decepção. Minutos antes de chegar de carro e abrir a porta de casa, eu comecei a pensar se algum dos gatinhos ainda se lembrava de mim. Seria a memória de um gato pequena como a de um peixe? Ou então o oposto disso? Talvez gatos tenham uma lembrança tão boa e precisa que seu interesse por comer peixes seja mais profunda que apenas um instinto de saciar sua fome. Quem sabe se alimentar de peixes seja uma busca de absorver as tão famosas habilidades de esquecimento?

Mas já se tinha passado um ano deste momento e ao invés de minutos esquecidos, os próximos estariam para sempre gravados na minha memória. Ela tinha morrido. Um minuto atrás estava tudo bem.

Chegando do hospital, tudo parecia diferente como se eu morresse e renascesse num mundo paralelo. Me recordo até hoje das cores, dos cheiros, da dificuldade de respirar e a sensação de estranhamento no espaço aberto ao ser colocada na calçada. Abriram a minha porta de casa, que não parecia mais ser minha, como uma realização dos meus desejos secretos. Ou seria as vontades da Akali? Simplesmente ela estava ali feliz ao me ver.

Subiu delicadamente na cama dando a volta por mim e começou com as patinhas fazer massagem na minha perna quebrada. Estava esclarecido o meu desaparecimento finalmente. Puxou com calma a coberta e se enrolou entre as minhas pernas como um passarinho voltando para o ninho. E ficou.

Akali. Do mesmo jeito que ela que dormiu satisfeita a um ano atrás, ela acordou. Ainda estava quente o tecido que dormia quando ela adormeceu para sempre. Nunca vou entender a maldade humana de destruir o amor vívido de um humano e seu bichano. Eu achava que ela ainda estava debaixo das cobertas, mas Akali morreu.

E como um tecido irreparável, o momento foi rasgado de forma simples e distraída como num desleixo num dia alegre. E eu fiquei em retalhos.

Banho

Banho. A água quente se desloca no ar em queda livre escorrendo pelas lacunas de ausência do meu corpo. Como um velho hábito, estico a minha língua para sentir as gotas que caem como floco de neve derretido, mas que derreteu demais. Aos poucos vou imergindo na água que cai: mãos, rosto, cabelo, corpo. Pego o sabonete e cheiro a espuma e ela, com cheiro de morango recém-colhido, parece uma mistura de nuvem com algodão doce.

– Pena que o olfato engana o paladar – digo enquanto penso nas minhas acidentais experiências de engolir sabão. Passo o xampu nos cabelos como uma massagista profissional, me lavo duas vezes, depilo as pernas, movo meus dedos úmidos pelas curvas da minha orelha. Cheiro novamente a espuma enquanto esfrego a esponja nas palmas da mão para sentir a textura. E a água quente continua caindo sob minha pele de forma que até o filósofo Epicuro diria que estou presenciando uma aguada manifestação de felicidade.

Busco mais o que fazer no banho (ao invés de racionar a água) como uma racionalização para continuar por mais 5 minutos. A consciência é forte demais para eu simplesmente ficar debaixo d’água, parada, sem buscar uma desculpa que justifique. As gotas continuam caindo na minha cabeça e escorrem como os pensamentos que vai e vão da minha mente, sempre buscando uma brecha para que esse banho não seja tão descaso com o planeta.

Listo mentalmente sentindo crescer o calor da responsabilidade (ou seria o calor da água?): sou vegetariana, planto alguns alimentos, faço compostagem, reciclo, saio pouco de carro… Lá fora está tão frio! – O banho começa a incomodar graças a uma fusão de corpo e mente. Meus dedos enrugados e minha cabeça moralista reclamam como se eu tivesse entrando em processo de cozimento. Depois de 40 minutos, enfrento o frio e saio.

Durante o choque de temperatura, minha mente finalmente se sente aliviada igual tomar num banho de cachoeira após horas de trilha na mata. Me surpreendo e então tento me recordar – não do último banho de cachoeira – mas sim de quantos dias eu estava sem tomar banho.