Banho

Banho. A água quente se desloca no ar em queda livre escorrendo pelas lacunas de ausência do meu corpo. Como um velho hábito, estico a minha língua para sentir as gotas que caem como floco de neve derretido, mas que derreteu demais. Aos poucos vou imergindo na água que cai: mãos, rosto, cabelo, corpo. Pego o sabonete e cheiro a espuma e ela, com cheiro de morango recém-colhido, parece uma mistura de nuvem com algodão doce.

– Pena que o olfato engana o paladar – digo enquanto penso nas minhas acidentais experiências de engolir sabão. Passo o xampu nos cabelos como uma massagista profissional, me lavo duas vezes, depilo as pernas, movo meus dedos úmidos pelas curvas da minha orelha. Cheiro novamente a espuma enquanto esfrego a esponja nas palmas da mão para sentir a textura. E a água quente continua caindo sob minha pele de forma que até o filósofo Epicuro diria que estou presenciando uma aguada manifestação de felicidade.

Busco mais o que fazer no banho (ao invés de racionar a água) como uma racionalização para continuar por mais 5 minutos. A consciência é forte demais para eu simplesmente ficar debaixo d’água, parada, sem buscar uma desculpa que justifique. As gotas continuam caindo na minha cabeça e escorrem como os pensamentos que vai e vão da minha mente, sempre buscando uma brecha para que esse banho não seja tão descaso com o planeta.

Listo mentalmente sentindo crescer o calor da responsabilidade (ou seria o calor da água?): sou vegetariana, planto alguns alimentos, faço compostagem, reciclo, saio pouco de carro… Lá fora está tão frio! – O banho começa a incomodar graças a uma fusão de corpo e mente. Meus dedos enrugados e minha cabeça moralista reclamam como se eu tivesse entrando em processo de cozimento. Depois de 40 minutos, enfrento o frio e saio.

Durante o choque de temperatura, minha mente finalmente se sente aliviada igual tomar num banho de cachoeira após horas de trilha na mata. Me surpreendo e então tento me recordar – não do último banho de cachoeira – mas sim de quantos dias eu estava sem tomar banho.

Mais contos em: http://thaioconde.art.br/category/textos/

Ruídos

Pum. Ruídos. Terça-feira, dia 19 de fevereiro de 2019 na cidade de São João Del Rei. Um professor tenta prender a atenção da sua turma de percepção musical. Em pé de frente à lousa, risca com seu giz desenhos do que ele acredita ser uma orelha. Tímpano. Cóclea. Frequência. Ruído.

Toc toc. Uma senhora com sorriso carismático atrapalha a aula para entregar o lanche do filho. Som musical,  ritmo, movimento, ruído – continua perto da porta o professor que não consegue esconder seu encantamento pelo músico John Cage. Altura, duração, intensidade, timbre – responde um aluno sentado no fundo que se sente orgulhoso de responder corretamente o que aprendeu nos seus anos de conservatório.

Agudo e grave. Lentamente, o professor toca no piano vários acordes e muda as opções apertando os botões pra tentar explicar o que é timbre. Não existe palavra já criada pra explicar o que é timbre! – diz frustrado no mesmo tom de voz de um quadrinista que se sente obrigado a responder quando lhe perguntam o que é arte.

Dó, ré, mi. Em Mi resguarda uma Dó da criança perto do piano que, por causa da sua terrível escolha de se sentar no canto da parede, está sendo punida orquestradamente com ruídos altos do velho piano.

Pi. Pi. Pi. Me assusto com meu celular que desperta imitando um relógio e, intrigado, o professor se pergunta o que tanto escrevo no meu caderno. Pausa, pauta. A aula continua e o professor desenha nas pautas do quadro as notas Ré, Mi, Fá e o Sol bate em seu rosto.

Crackle. Fecham as cortinas da janela e continua o professor, craque em ensinar partitura. Lá. Lá no corredor, toca o sinal avisando o fim da aula. Os alunos aceleram o ritmo saindo da sala antes mesmo que o professor termine. E depois das pausas frequentes, o professor guarda o final para Si.

Silêncio.

Mais contos em: http://thaioconde.art.br/category/textos/

Instagram